Porque o ESG europeu já não explica o mundo em 2026
Artigo 06 Janeiro de 2026 · Cristina Aguilar Póvoas
Artigo 06 Janeiro de 2026 · Cristina Aguilar Póvoas
Porque o ESG europeu já não explica o mundo em 2026
Durante a última década, o ESG tornou-se a linguagem dominante para falar de risco, investimento e responsabilidade, sobretudo no contexto europeu e nos mercados financeiros mais regulados. Ambiente, Social e Governação passaram a servir de bússola para decisões públicas e privadas, integrando-se em políticas, diretivas e critérios de acesso a capital. Mas em 2026, essa bússola já não aponta sozinha para o norte.
O mundo mudou mais depressa do que o quadro conceptual que usamos para o interpretar. A energia voltou a ser poder, a segurança deixou de ser um pressuposto implícito e a geopolítica deixou de ser pano de fundo para se tornar um fator determinante nas decisões económicas. O problema não é o ESG europeu estar errado. É estar incompleto como lente única para explicar o mundo em que já vivemos.
Para perceber porque é que este desalinhamento existe, é útil recuar ao sistema que moldou a ordem energética e financeira das últimas décadas: o petrodólar. Desde os anos 1970, grande parte do comércio internacional de petróleo passou a ser feito em dólares, criando uma procura estrutural pela moeda americana. Esses dólares regressavam aos Estados Unidos sob a forma de investimento e financiamento da dívida, permitindo sustentar um vasto aparelho de segurança com alcance global. Esse sistema de segurança, por sua vez, contribuía para a estabilidade das rotas energéticas e dos principais países produtores.
Este arranjo não foi perfeito nem isento de tensões, mas funcionou como tendência dominante durante décadas. Criou previsibilidade, reduziu incerteza e sustentou uma ordem internacional relativamente estável. O que mudou é que este ciclo começou a ser pressionado simultaneamente por três forças estruturais: a transição energética, a fragmentação geopolítica e o uso crescente da energia como instrumento estratégico.
Durante anos, o ESG funcionou porque o mundo permitia que funcionasse. A energia era relativamente acessível, as cadeias globais pareciam robustas e a segurança era tratada como uma garantia externa ao cálculo económico. Nesse contexto, fazia sentido avaliar risco sobretudo em termos ambientais, sociais e de governação corporativa.
Esse contexto desapareceu mais depressa do que a narrativa que o acompanhava.
Em 2026, o risco já não é apenas reputacional, regulatório ou climático. É também físico, económico e geopolítico. É o risco de não ter acesso a energia em condições previsíveis. O risco de depender de cadeias industriais excessivamente concentradas. O risco de sanções, bloqueios, choques de preços e ruturas logísticas.
Estes riscos não cabem de forma adequada nas grelhas clássicas de ESG tal como foram pensadas e aplicadas na última década. Não por impossibilidade conceptual, mas por inadequação prática. As métricas ESG foram desenhadas para avaliar impactos e comportamentos dentro de um sistema assumido como funcional e relativamente estável. Não para medir a fragilidade do próprio sistema nem a probabilidade de disrupções estruturais.
Isto não significa que o ESG europeu esteja errado. Significa que foi concebido para um mundo mais previsível do que aquele em que hoje vivemos. Um mundo em que a energia não era usada como arma política, em que a segurança era garantida por alianças quase automáticas e em que a globalização parecia irreversível. Esse mundo terminou, mesmo que ainda não o tenhamos formalmente reconhecido.
Enquanto a Europa continua a debater o ESG sobretudo como um quadro normativo e regulatório, grande parte do resto do mundo já opera, na prática, com outra hierarquia de riscos. Não porque tenha abandonado preocupações ambientais ou sociais, mas porque passou a lidar com constrangimentos mais imediatos e existenciais.
É neste sentido que faz sentido falar, de forma deliberadamente provocadora, num ESG do mundo real, onde a prioridade prática passa por Energia, Segurança e Geopolítica. Não como substituição do ESG clássico, mas como a sua base operacional. Sem energia acessível e previsível não há transição. Sem segurança física, económica e cibernética não há investimento duradouro. Sem leitura geopolítica não há governação eficaz num mundo fragmentado.
Os exemplos são claros. Os Estados Unidos aceleram a produção energética doméstica e reforçam o controlo de cadeias tecnológicas críticas, mesmo enquanto mantêm metas climáticas ambiciosas. A China investe simultaneamente em renováveis, carvão, nuclear e minerais estratégicos, porque trata a autonomia energética como questão de soberania. A Índia avança na transição, mas recusa comprometer crescimento e segurança energética. O Médio Oriente fala de diversificação enquanto preserva o petróleo como alavanca geopolítica.
Todos lidam com ambiente, sociedade e governação. Mas começam pela sobrevivência e pela resiliência do sistema.
Um dos erros mais persistentes na leitura do mundo atual é continuar a pensá-lo como plenamente globalizado. Em 2026, o sistema internacional funciona cada vez mais através de gargalos específicos. O poder não reside apenas em produzir mais, mas em controlar pontos críticos onde fluxos podem ser acelerados, condicionados ou interrompidos.
Esses chokepoints são concretos: energia, minerais críticos, semicondutores, rotas marítimas, sistemas financeiros, infraestruturas digitais. Quem controla estes pontos exerce influência sem necessidade de força militar direta. A coerção tornou-se técnica, silenciosa e permanente.
A transição energética não elimina esta lógica. Intensifica-a. O petróleo deixou de ser o único gargalo, mas foi substituído por vários outros. Minerais concentrados, capacidade de refinação limitada, cadeias industriais longas e vulneráveis, redes elétricas e digitais expostas. A promessa de abundância futura convive com uma competição feroz pelo controlo intermédio.
A Europa entrou neste novo ciclo com uma vantagem normativa clara. Liderou o debate climático, elevou padrões ambientais e sociais e transformou o ESG num referencial global. Esse papel moldou regras e influenciou mercados.
Mas liderança normativa não substitui base material.
Ao longo de décadas, a Europa externalizou energia, matérias-primas, parte da sua base industrial e a própria segurança. Tratou estes pilares como garantias implícitas. Num mundo organizado por chokepoints, essa opção revelou-se estruturalmente frágil.
A crise energética expôs essa vulnerabilidade. A resposta europeia foi rápida na dimensão regulatória, mas mais lenta na reconstrução de soberania material. Em muitos domínios, continuou-se a definir metas antes de assegurar cadeias robustas, a legislar antes de garantir execução, a confiar em mercados globais que já não funcionam como antes.
ESG sem energia segura é fragilidade. ESG sem base industrial é dependência. ESG sem segurança é ilusão. Defender valores num mundo mais duro exige coerência entre objetivos e meios.
Portugal não controla os grandes chokepoints globais. Mas num mundo fragmentado, a estabilidade tornou-se um ativo escasso. O país oferece previsibilidade política, enquadramento jurídico estável, integração europeia e uma posição atlântica fora das principais linhas de fratura militar.
Ao mesmo tempo, sente de forma amplificada choques externos que não provoca. Energia, turismo, finanças públicas e custo de vida reagem rapidamente a disrupções globais. Portugal vive entre a oportunidade de se afirmar como porto seguro e o risco de ser vítima colateral.
A diferença está na leitura estratégica. O país pode limitar-se a reagir a choques, ou posicionar-se de forma consciente como plataforma energética, logística e de capital. A aposta em renováveis, LNG, portos e conectividade digital não é apenas ambiental ou económica. É geopolítica aplicada à escala nacional.
Decidir em 2026 já não é otimizar cenários ideais. É gerir exposição a risco estrutural. Energia, infraestruturas e previsibilidade regulatória subiram na hierarquia das decisões. O custo de interrupção pesa hoje mais do que o custo marginal.
Avaliar risco apenas com métricas financeiras ou ESG clássicas deixou de ser suficiente. É necessário compreender dependências, gargalos e alternativas. O valor desloca-se da promessa de retorno máximo para a capacidade de preservar valor em cenários adversos.
Num mundo de choques recorrentes, margem de segurança voltou a ser racional.
O ESG não perdeu relevância. Perdeu exclusividade como lente para interpretar o risco. Em 2026, continuar a analisar o mundo apenas com os conceitos da década passada é confortável, mas insuficiente.
A energia voltou a ser poder. A segurança voltou a ser condição. A geopolítica tornou-se variável estrutural. Ignorar esta realidade não torna o mundo mais sustentável. Torna-o apenas menos compreendido.
Não há sustentabilidade sem resiliência. E não há resiliência sem energia, segurança e uma leitura lúcida da geopolítica que nos rodeia.
Esta dificuldade em enquadrar risco e valor não é exclusiva do ESG. Ela liga-se a transformações mais profundas na forma como tecnologia, moeda e ativos reais estão hoje a competir como reservas de confiança, num contexto de fragmentação económica e financeira.
Nota final
Este artigo não pretende oferecer respostas fechadas, mas ajudar a reorganizar a forma como lemos risco, sustentabilidade e decisão num mundo mais fragmentado. As implicações variam consoante o setor, a geografia, o horizonte temporal e o grau de exposição a energia, infraestrutura e contexto regulatório.
Se queres refletir sobre como esta leitura estratégica se aplica ao seu caso concreto, pode falar comigo diretamente.